A medicina levou Paulo Folletto de Colatina a Vitória e, depois, ao Rio de Janeiro, onde se especializou em cirurgia geral. De volta à sua cidade, iniciou uma intensa trajetória nos hospitais e na saúde pública.
Entre plantões, partos e centenas de cirurgias, construiu uma carreira marcada pela dedicação aos pacientes, pela experiência nos centros cirúrgicos e pelo compromisso permanente com a vida.
"Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos" significa trabalhar pela inclusão social, fruto da Justiça; significa não ter preconceitos, aplicar nossos melhores talentos em favor da vida plena.
Fiz cursinho preparatório para medicina na escola Salesiana, no Forte São João, em Vitória. Era 1974, auge da ditadura militar. Colatina assistia ao último trem passar dentro da cidade, em 1975, em meio à expectativa da população, do prefeito Paulo Stefenoni e do governador em exercício do Espírito Santo, Élcio Álvares (falecido aos 84 anos, em 2016), indicado pelo presidente Ernesto Geisel. Era inaugurada a variante para que a linha férrea não precisasse mais passar pelo centro da cidade.
Todo o Espírito Santo experimentava expansão da industrialização e investimentos em infraestrutura, com o início da construção da Terceira Ponte. Eu ainda nem imaginava vivenciar a urbanização da capital Vitória. Morava num pensionato no centro e dividia o quarto com mais dois colegas. Me recordo de madrugadas inteiras estudando numa mesa de madeira pequena e simples, feita para apenas um estudante.
Desde o cursinho preparatório, estava determinado a passar em medicina na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). No meu caso, ou era Ufes ou a Ufes, pois não havia a menor possibilidade de meus pais investirem financeiramente nos estudos na Emescam.
A melhor notícia da minha vida foi a aprovação no vestibular. Em 1980, estava graduado em medicina pela Ufes. Élcio Álvares não continuava mais como governador do Espírito Santo — o novo político indicado para o cargo era Eurico Vieira Rezende. Como chefe maior do Executivo estava o general João Figueiredo, último militar a governar o país na ditadura, e responsável pela abertura política lenta e gradual.
A minha trajetória de estudos não encerrou com a graduação. Entre 1981 e 1982, morei no Rio de Janeiro para cursar residência médica em cirurgia geral no Hospital Federal do Andaraí.
Link — atualmente, o Hospital do Andaraí é unidade de média e alta complexidade que presta assistência hospitalar, ambulatorial e de emergência referenciada, incluindo atendimento oncológico. Entre os serviços prestados estão microcirurgia, cirurgia plástica, suporte a grandes traumas e Centro de Tratamento de Queimados.
Quando voltei para Colatina, após a finalização da residência no Rio de Janeiro, em agosto de 1983, trabalhei como cirurgião no Hospital São José. O convite partiu da direção recém-assumida por Walter Bernardina. A essa altura, já somava experiência de muitas noites nos prontos-socorros, ainda como acadêmico.
Além do São José, trabalhei de carteira assinada como cirurgião do Hospital Silvio Avidos, onde realizei centenas de plantões e partos. Aos sábados, trabalhava no pronto-socorro; aos domingos, na maternidade.
"Me recordo do meu primeiro trabalho: foi no pronto-socorro, ao dar pontos num paciente que estava com corte na perna. Na maternidade, realizei dezenas de partos", recorda Paulo Folletto.
Conheci grandes colegas médicos com quem mantenho amizade até hoje. O convite para me filiar ao primeiro partido político partiu, inclusive, de um médico — o saudoso Doutor Jório de Barros, então deputado federal (1991-1994). Em 1991, filiei-me ao MDB.
Não permaneci muito tempo nesta agremiação. No ano seguinte, filiei-me ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), onde permaneço até hoje.
Foi no PSB que venci minha primeira eleição, a de vereador de Colatina, em 1993. Na época, fiz a troca porque fui convencido por um novo grupo, com novas proposições políticas e sociais mais compatíveis com minhas convicções.
Esse grupo estava sob liderança de Renato Casagrande, engenheiro florestal e político que era deputado estadual (1991-1994) e depois se tornaria vice-governador (1995-1999), deputado federal (2003-2007), senador (2007-2020) e governador do Espírito Santo por três vezes (2011-2015; 2019-2022; 2023-2026). Demos início a uma longa união política para o Espírito Santo.
No dia 1º de abril de 2026, completei 34 anos de PSB, partido no qual permaneço até hoje.
Foto — Paulo Folletto com o governador Renato Casagrande.
Fui um dos 17 vereadores eleitos ao lado do saudoso Mario Sérgio Pinto Soares, João Eugênio Costa Meneghelli, Pedro Sfalcini, Aylton Cheroto, Maria Arly Dalapicola Teixeira, Maria Luiza Pessin de Ávila, Edson Dalvin, Bragatto, Asterval Antônio Altoé, Jacymar Dalla Fontes Filho, José Leandro Vacari, José Leal Sant'Anna (in memoriam), Azelino Lemos, Valdir Nascimento, Paulo Jacintho Perim, Luiz Antônio Murad e Hélio Dutra Leal. O chefe do executivo municipal era Tadeu Giuberti.
Nos anos de 1993 e 1994, a Câmara Municipal de Colatina estava focada na reestruturação administrativa, no funcionalismo público e em convênios para o desenvolvimento rural.
Em 1995, a Câmara teve uma produção legislativa voltada para a organização sanitária, mobilidade urbana e estruturação administrativa. Em 1996, aprovou importantes normas de estruturação urbana, com destaque para a instituição do Plano Diretor e o Código de Obras.
"Todo fim abre caminho para um novo começo." — Heráclito
Quando comecei minhas primeiras atividades como vereador, em 1993, coincidiu com o período de transição do serviço de telefonia fixa e o nascimento da telefonia móvel.
Vídeo — Folletto, dentro da Câmara Municipal, recorda quando o ex-governador José Ignácio Ferreira esteve em Colatina como presidente da Telebrás.
Por falar em Unimed, a década de 1990 foi marcada por atividades médicas intensas em três hospitais e consultas diárias de pacientes da cidade e vindos do interior.
Até 1993, realizei centenas de cirurgias no Hospital Santa Maria, época de rotina puxada. Marinete, minha instrumentadora cirúrgica por três décadas, lembra que fazia várias cirurgias num único dia pelo antigo e extinto Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica e de Previdência Social). Além do Santa Maria, atendia e operava no São José e no Hospital Silvio Avidos.
Fotos — mix de imagens da rotina médica (identificadas como "medicina 1" e "Medicina2comNoe").
Sempre ao meu lado em quase todas as cirurgias que realizei estava Marinete Santos, instrumentadora cirúrgica que me acompanhou nos consultórios e salas de cirurgia por mais de três décadas nos hospitais de Colatina.
Foto — Folletto com Marinete em evento no Plenotel.
Quase da mesma intensidade e rotina puxada de plantões e cirurgias era minha dedicação às peladas de futebol. Tínhamos o time do Jardim Planalto e todas as quartas-feiras marcávamos presença na Itajubi. Ainda tinham as peladas e partidas de sábados e domingos de manhã.
"Futebol e torcer pelo Vasco da Gama são paixões que carrego até hoje."
Fotos — mix de imagens com camisas de times de futebol (pastas "futebol", "Vasfamilia" e "camepaofutebol"), uma delas escaneada do jornal Nova Geração, de 2003.
Enquanto exercia a vereança, o país estava em ebulição por conta da instabilidade econômica, com inflação batendo 80% ao mês. O 1º presidente após o período militar, Fernando Collor (PRN), eleito com o slogan "Caçada aos Marajás", só governaria o Brasil até o 2º ano de mandato, devido a medidas impopulares como o congelamento de salários, o corte no funcionalismo público e o confisco da poupança.
À frente do Sistema de Telecomunicações Brasileiro (Telebrás), estava o capixaba José Ignácio Ferreira, que viajou pelo Brasil para explicar a transição dos serviços de telecomunicações. Me lembro exatamente do dia em que ele esteve em Colatina, na Câmara Municipal de Vereadores, para detalhar o processo de transição — início de uma onda de leilões de prédios públicos onde funcionavam as sedes regionais.
No fim de 1998, a Unimed arremata o prédio da extinta Telest, época em que eu estava à frente da cooperativa — assunto do próximo capítulo.
Assumi a presidência da cooperativa de médicos Unimed Noroeste Capixaba em 1998. A sede antiga funcionava num imóvel em cima de uma padaria, próxima à rodoviária.
Foi um período de muito desafio, porque a cooperativa tinha 14 mil vidas, mas apenas sete mil contas honravam o pagamento da mensalidade. A Unimed passava por situação financeira delicada. Planejamos um choque de administração e implementamos o Plano de Revitalização de Negócios.
A primeira medida de impacto foi eliminar os inadimplentes e ampliar a carteira de novos clientes. Para isso, criamos um projeto de vendas de planos de saúde, com a finalidade de ir até as pessoas e empresas para apresentar os benefícios de um plano de uma cooperativa de médicos especializada, com consultas, exames garantidos e atendimento em todo o Brasil.
Vídeo — Folletto, dentro da sala da presidência da Unimed, destaca o sistema de intercooperação.
Deixei a sala da direção para bater de porta em porta das casas das pessoas e nas empresas para vender o plano de saúde. Deu certo! Em um ano, o número de clientes cresceu e realizamos campanhas de conscientização e divulgação. Instalamos lixeiras pela cidade e patrocinamos campeonatos de futebol de norte a sul de Colatina. A Unimed passara a representar vida, cuidado, limpeza pública, consciência social e ambiental e prática esportiva com qualidade de vida.
Foto — arquivo identificado como "Semtitulo".
Depois de o plano de negócios ter dado certo, era a vez de melhorar a infraestrutura. A sede administrativa permaneceu no prédio da esquina da avenida Ângelo Giuberti com a rua Doutor Joaquim Ribeiro Filho até 2004, quando foi inaugurado o Hospital da Unimed Noroeste Capixaba.
Hoje, a cooperativa atende 16 cidades da região, incluindo Aimorés, em Minas Gerais, além de Baixo Guandu, Pancas, Mantenópolis, Alto Rio Novo, Águia Branca, Governador Lindenberg, Itarana, Itaguaçu, Marilândia, São Gabriel da Palha, São Domingos do Norte, São Roque do Canaã, Ecoporanga e Barra de São Francisco. Conta ainda com maternidade, inaugurada em 2025 no antigo Hospital Santa Luzia, cerca de 312 médicos cooperados e mais de 60 mil vidas cadastradas.
"A Unimed deu uma nova cara para nossa cidade. Crescia a cada ano. Esta experiência pavimentou e abriu caminho para novos horizontes na cidade", disse Folletto.
Permaneci na direção da cooperativa até 2005, após ser reconduzido ao cargo. Era a vida sendo generosa comigo, e eu aproveitava bem as oportunidades porque tinha ao meu lado as pessoas certas. Demos um salto na organização e consagramos o Plano de Saúde Unimed como referência regional e nacional — uma experiência de gestão que mudaria para sempre a minha vida.